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O desenho da letra: a pichação na aula de artes

Ivana Soares Paim, professora na Faculdade Paulista de Artes (FPA) e na EMEF Ministro Calógeras, São Paulo, Brasil.

Resumo. Para lembrar que é possível resgatar a pichação como conteúdo para aulas de artes no ensino fundamental e médio, foram consideradas sua importância como símbolo de identidade cultural dos alunos, suas qualidades estéticas e o papel da escola como mediadora de conflitos.
Palavras chave: pichação,identidade, arte-educação e globalização.

Abstract. To recall that it’s possible to adopt the vandal graffiti as a content to art classes during the Junior High School and High School, this text considered its importance as a symbol of identity for the students, its esthetical characteristics and the role of the school as a conflict solver.
Keywords: vandal graffiti, identity, art-education and globalization.

Tema: cultura visual, sujeito e educação

Introdução: as invasões e os invasores: identidade e pertencimento
Ao se locomover a pé ou de carro em grandes centros como São Paulo, é comum encontrar inscrições indecifráveis em sua maioria, que invadem as superfícies de muros e calçadas, chamadas de pichações.
As pichações são produzidas por grupos ou indivíduos entre 13 e 18 anos, que invadem muros, janelas, e até monumentos. Eles escondem o rosto em seus capuzes e gorros, despistarm policiais, e vão munidos de mochilas, onde carregam suas latas de spray. Agem sempre na calada da noite, pois sabem de seu ato invasivo e da rejeição que seus trabalhos sofrem pela maior parte da comunidade (COSTA, 2000). Disputam espaços e territórios entre si, o que reforça a idéia de invasão, e com isso, manifestam-se contra a sociedade que os excluiu ou os impossibilitou alcançar ideais de sucesso profissional e financeiro, alardeados pela ideologia neoliberalista e globalizadora.
Ao conquistar espaços cada vez mais difíceis e ao repetir seus escritos por extensões cada vez maiores na cidade, o pichador ganha reconhecimento e admiração entre os grupos de pichadores, que reclamam sua existência nos espaços urbanos (COSTA, 2000). Os pichadores se esforçam para manter a relação de aceitação dentro do grupo específico e excluir os demais grupos sociais que um dia o excluíram. “O entrelaçamento dos traços das letras, propositadamente dificultando a leitura, causa ao observador a sensação de estranheza e impotência diante da imagem” (COSTA, 2000, p.67). Este fato pode estar relacionado às sensações que os pichadores têm com seu espaço social e geográfico. E é assim que essas imagens invadem o espaço urbano, mostrando a falha desse sistema que prega valores de sucesso, mas que ao mesmo tempo, nega a muitos o acesso a tais conquistas.
Portanto, é a partir da compreensão da dificuldade de acesso às vias tradicionais de obtenção de status que os pichadores reformulam e constroem suas identidades. A inserção do pichador em seu grupo ou “família” está ligada a admiração conquistada por sua coragem de invadir o espaço da cidade, de transgredir e conquistar o maior número de territórios possíveis. É assim que eles adquirem respeito e reconhecimento entre seus companheiros (SILVA, in: POATO, 2006).
Esses indivíduos, afirma Silva (in: POATO,2006) buscam um olhar de reconhecimento do outro pertencente ao mesmo grupo, para que esse olhar os legitime como integrantes dessa “família” e os valorize. Precisam do olhar do outro para constituírem uma imagem positiva de si mesmos e esconder seu próprio “eu” empobrecido.
O projeto identificatório, continua Silva (in: POATO, 2006), é a construção de uma imagem ideal que o “eu” se propõe a si próprio a alcançar no futuro. Mas para isso, precisa ter a ilusão necessária de poder realmente chegar a tal imagem ideal.
Por essa razão é importante que a escola valorize o universo artístico do aluno, para que ele possa ter uma visão mais positiva de si mesmo e que se veja capaz de ir além do que já conhece, percebendo que pode pertencer a mundos diferentes.
1. A estética da pichação
As pichações apresentam uma imagem visual característica, de resolução rápida, que por meio de letras intrincadas e angulosas transmitem muitas vezes a sensação de violência e agressividade. Porém, quando o pichador vai para a rua colocar sua marca, já se sentou e elaborou um desenho próprio da sua letra, aquela que o representa, assim como ao grupo; elaborou já a grife que identificará a todos. Este ato de criar um desenho de letras é por si um exercício de sensibilidade estética, segundo Costa (2000).
Essas imagens são passíveis de serem analisadas como produções estéticas, mesmo que sua função seja também de protesto.
Um dos estilos brasileiros, já mundialmente conhecido é o tag reto. O tag reto é mais que uma assinatura e se caracteriza por letras retas, alongadas e pontiagudas, pintadas com spray ou rolo de tinta, letras que procuram ocupar o maior espaço possível do suporte. Essa forma, segundo Lassala (2010), tem estreita relação com o movimento do corpo dos pichadores; o que é perceptível na tinta que escorre das letras, esfumaçados nas extremidades e na altura dos caracteres desenhados. O tag reto é comumente encontrado na cidade de São Paulo, refletindo a oposição forte entre vertical e horizontal, presente em sua arquitetura. Mas na cidade aparecem também escritas curvilíneas, feitas com materiais diversos como giz de cera, corretivo de texto, riscos sobre cimento fresco, entre outros.
Na criação da marca de identificação o pichador transfere para a imagem sua ideologia ou intenções. Assim, é possível perceber letras com cores escuras, de traçados duros, angulosos, expressão de raiva ou desencanto; ou letras coloridas, alegres, reflexões de propostas de incentivo e mais positivas.
O desenho das letras, em seu percurso histórico, desde o início da escrita, sempre foi influenciado pelo material com que é executado e a cultura de sua época. Assim, a estética das letras desenhadas com penas sobre o pergaminho buscava uma forma em que se explorasse as qualidades e limitações do material, influenciando diretamente sobre o desenho dessa caligrafia. Segundo Costa (2000) a construção de letras assemelha-se à construção arquitetônica, pois se estrutura em espaços vazios. Enquanto a arquitetura ergue-se com colunas, paredes e espaços internos e externos, as letras constroem-se com traços preenchidos e os espaços em branco, internos e externos.
Outra característica formal das pichações é sua economia de letras. Essa tendência a uma expressão reduzida da escrita e da linguagem caracteriza as mudanças sociais ocorridas ao longo dos anos, que requerem a cada dia, que se comunique mais informação com o mínimo de recursos.
No ato da escrita, o pichador precisa de uma imagem sintética, que dê conta de expressar e comunicar sua visão de grupo, num espaço curto de tempo, para não ser pego pelos vigias ou pela polícia. É uma imagem que precisa ser lida rapidamente, pois tanto outros pichadores como a população em geral, estão sempre de passagem, em carros e ônibus.
Os pichadores usam as estratégias propagandísticas com as quais entram em contato pela TV, rádio, e cartazes; e isso faz com que as pichações sejam expressões artísticas de seu próprio tempo e meio, pois refletem em si mesmas características gerais do relacionamento conflituoso que as pessoas mantem entre si e com a cidade.
2. A função da escola na sociedade globalizada
A incursão neoliberalista das culturas dominantes às chamadas culturas locais, chamada de globalização, fez com que surgisse entre elas uma situação de conflito, pois costumes e visões de mundo tão diversos teriam de aprender a conviver. Na busca de amenizar conflitos, a globalização não deve ser considerada como produtora de homogeneidade, porque mesmo havendo a imposição de valores, ideais e estilo de vida das culturas ditas dominantes àquelas locais, é na tensão entre o local e o global que surgem reinterpretações e releituras. O global é assimilado por meio da resignificação de seus bens simbólicos, num processo de troca entre si e a cultura local de origem (RODRIGUES & SANTOS, in: SOBREIRA, 2010). Esse processo de comunicação intercultural acontece nas grandes metrópoles, que abrigam pessoas de inúmeras origens, crenças e condição social distintas.
No Brasil, com a luta pela democratização do ensino, mais acirrada entre as décadas de 40 e 60, houve um redirecionamento do papel da escola, antes, elitista e concervadora (PILETTI, 2008) e atualmente, vista como ponto de embate entre essas diversas culturas, e tendo que mediar esses conflitos.
Para que a mediação ocorra com sucesso, é necessário que a instituição escolar dê voz aos alunos, pais e professores. Isso significa levar em conta suas necessidades, aspirações e gostos ao selecionar e definir objetivos e conteúdos. A escola deve romper com aquela visão de que há “uma força superior à ação dos sujeitos e que seria determinadora das ações sociais” (RODRIGUES & SANTOS, in: SOBREIRA, 2010).
Sem o auxílio da comunidade, a escola torna-se ainda mais fraca como um dos agentes de transformação social. É preciso que a escola e a comunidade caminhem juntas, desenvolvendo um projeto de trabalho que consiga atender a seus desejos e expectativas educacionais.
Conclusão
Considerando que muitos alunos do ensino fundamental e médio fazem pichações na escola ou no bairro, é importante lembrar que essa escrita é benvinda às aulas de arte, como grande centro de interesse e ponto de partida para que o aluno descubra outras formas de arte como a arquitetura e as intervenções artísticas em espaços públicos, não tão familiares a ele.
Eisner afirma que “existem quatro coisas principais que as pessoas fazem com a arte. Elas veem arte. Elas entendem o lugar da arte na cultura, através dos tempos. Elas fazem julgamentos sobre suas qualidades. Elas fazem arte” (EISNER, in BARBOSA, 2005, p.84). Assim, as pichações poderiam ser levadas à sala de aula e analisadas pelos próprios alunos que as produzem, como trabalhos de arte. Lanier defende a idéia de que o professor deva valorizar o universo estético que o aluno já possui e não apenas impor seu gosto e valores sobre o que julga ideal em estética (LANIER, in BARBOSA, 2005). E somente partindo da valorização do universo artístico dos alunos os professores poderiam ampliá-lo e auxiliar o aluno a experimentar outros.
Levando em conta as afirmações de Eisner e Lanier sobre o ensino de artes na escola, vê-se que reconhecer as qualidades estéticas da pichação e trazê-la para a aula seria um ganho a favor da escola como mediadora de conflitos. Ao valorizar o repertório trazido pelo aluno, a escola mostra que o vê de uma maneira positiva e diz a ele que sua opinião e expressão tem importância para o trabalho escolar. Isso faz com que esses alunos envolvidos com a cultura da pichação tenham de si mesmos uma imagem melhor e sintam que são capazes de refletir sobre o espaço urbano onde atuam, ao entrar em contato com outros tipos de intervenções artísticas no espaço da cidade.
Cabe à escola apresentar aos alunos alternativas de relação com o meio e seus semelhantes, e só assim cumprir seu papel de mediadora nessa sociedade repleta de conflitos.
Referências
Eisner, Elliot (2005) “Estrutura e mágica no ensino da Arte” in: BARBOSA, Ana M. (org.) Arte-Educação: leitura no subsolo. São Paulo, Cortez. ISBN: 852490643-X.
Costa, Roaleno (2000) A recepção e a Estética das Imagens Grafitadas nos espaços da cidade de São Paulo. Tese de doutorado. São Paulo: ECA/USP.
Lanier, Vincent (2005) “Devolvendo Arte à Arte-Educação” in: BARBOSA, Ana M. (org.) Arte-Educação: leitura no subsolo. São Paulo, Cortez. ISBN: 852490643-X.
Lassala, Gustavo. (2010) Pichação não é Pixação. São Paulo: Altamira. ISBN: 9788599518113.
Piletti, Nelson (2008) História da Educação no Brasil. São Paulo: Ática. ISBN: 8508035624.
Rodrigues, Débora M. & Santos, Regina M. (2010) “Práticas interativas: caminho para a constituição da docência in: SOBREIRA, Henrique G. (or